Quando todos vão à guerra

É muito difícil eu postar um texto de um outro autor. Evito fazê-lo ao máximo, uma vez que a minha concepção para esse blog é divagar sobre temas específicos, através do meu ponto de vista. No entanto, às vezes isso é impossível. Principalmente quando eu encontro um artigo tão brilhante, tão completo, que qualquer tentativa minha de agregar será um fracasso.
Assim, reproduzo abaixo um artigo de Allan Turnowski publicado no jornal A Folha de São Paulo de 10/08/09, cujo título é “Quando todos vão à guerra”. Nesse texto o autor faz uma reflexão sobre como os governos brasileiros e a própria sociedade tratam os policiais. A publicação desse artigo coincidiu com o início da greve dos policiais em minha cidade, Salvador. Como se já não bastasse a briga entre prefeito e governador (que está deixando a cidade sem investimentos, suja, sem conservação, livre para o tráfico, pra não dizer acabada), agora os policiais estão em greve porque não conseguiram encontrar outra forma de obrigar o governo a lhes fornecer o básico, garantido pela Constituição, para o exercício do seu trabalho: Coletes à prova de bala na validade e carros e armas que funcionem. Perdoe-me Boris Casoy, mas eu preciso utilizar o seu bordão: Isso é uma vergonha! Bem, deixemos de blá, blá, blá e vamos ao texto.

Quando todos vão à guerra

ALLAN TURNOWSKI

EM MEADOS do ano retrasado, estive em Israel com uma comitiva da área de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro para conhecer e viabilizar a compra de veículos blindados de categoria leve, escudos e coletes à prova de bala para serem utilizados pelas polícias Civil e Militar do nosso Estado.
Trata-se de equipamentos de ponta, de uma empresa com orçamento anual de US$ 600 milhões, utilizados por diversas polícias do mundo, entre elas de Suécia, Alemanha e Israel.
Muitas dessas polícias atuam em países onde não há a realidade de confrontos do Rio de Janeiro, mas que adquiriram esses equipamentos para proteção de seus policiais e redução de distúrbios urbanos.
Durante as várias horas de conversas e negociações para eventual aquisição dos veículos blindados, solicitamos algumas adaptações nos equipamentos com a finalidade de adequá-los à realidade carioca, com foco na relação custo/benefício, especialmente no que tange ao valor de manutenção dos equipamentos.
Assim, pedimos a supressão de alguns itens de segurança, menos utilizados em nossa realidade cotidiana, como sistema antiminas terrestres e equipamento contra armas químicas.
Por fim, pedimos a diminuição do tamanho do vidro dianteiro, pois, em caso de dano, sua troca seria financeiramente mais em conta, apesar da perda da visibilidade do motorista.
Era preocupação da cúpula da segurança a integridade física dos seus policiais. No entanto, naquele momento, o foco das discussões era o custo do equipamento.
A diretora-executiva da empresa dos blindados, incomodada com a perda de visibilidade do motorista, interrompeu nossa argumentação e nos disse, em inglês: “Senhores, aqui em Israel, nossa preocupação principal é com a integridade física do nosso policial. Quando nossos filhos vão defender nosso país, temos de trazê-los de volta para casa, vivos e saudáveis, mesmo que tenhamos de pagar mais por isso”.
Naquele momento, tive dois pensamentos. O primeiro, de vergonha, pela percepção dos israelenses sobre a maneira que tratamos nossos policiais. Em seguida, de reflexão, quando percebi a real diferença entre as culturas de países tão distintos.
Em Israel, todos são obrigados a servir o Exército, sejam ricos, sejam pobres. Logo, o filho do banqueiro, do empresário, do professor e do lixeiro vão à guerra, onde todos se nivelam, pois os tiros e as bombas do inimigo não sabem distinguir diferentes camadas sociais.
No Brasil, a realidade é outra. O concurso para as polícias ainda não atrai o interesse de membros de determinadas classes sociais formadoras de opinião. Portanto, os membros dessas camadas mais influentes da sociedade não estão nas trincheiras dessa luta diária travada pelos nossos valentes policiais para a manutenção da ordem pública e a defesa de toda a sociedade.
Como consequência, essas classes não veem o policial como um integrante de sua casta, mas apenas um número na estatística de violência de nossa cidade. Por essa razão, não se preocupam se esses policiais voltarão vivos ou mortos dessa batalha. Preocupam-se apenas com as suas próprias batalhas.
O único caminho a ser seguido é melhorar a qualidade do serviço prestado, buscar reconhecimento profissional e, por conseguinte, melhores salários, o que nos levará a um melhor processo de seleção, que atingirá todas as camadas sociais e aí, então, a integração com toda a sociedade.
Enquanto isso, solicitamos aos nobres sociólogos que nos incluam em sua luta de classes por uma sociedade mais justa e respeitadora dos direitos humanos.
Detalhe: não conseguimos importar os blindados.


ALLAN TURNOWSKI, 39, bacharel em direito, com especialização em gerenciamento de incidentes críticos do programa de assistência antiterrorista da Academia de Policia da Louisiana (EUA), é delegado e chefe da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.

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