A volta da boa política internacional

Prezados, confesso que há três anos eu perdi o prazer que me levou a cursar Relações Internacionais: discutir sobre política mundial. E o responsável por isso foi Bush. Seus atos, discursos e parco conhecimento sobre o tema era o que me desmotivava. Além disso, apesar do multilateralismo e da emergência de diversos atores de importância no cenário internacional, nenhum conseguiu substituir a função dos EUA. Ele pode ter perdido seu poder enquanto superpotência, mas não o de agregador, líder. Por isso, durante o governo Bush e na luta contra o terrorismo, ficamos órfãos de um bom guia, de um bom político, que pensasse no seu país, mas que se lembrasse da sua responsabilidade para com os outros.
Pessoalmente eu depositei muitas esperanças no governo de Barack Obama. Vibrei, imensamente, quando ele ganhou a eleição. Quando da posse, me vi lá, ao lado de milhares de americanos que, como eu, depositava nele a esperança de um futuro melhor. Passada a festa da pose, me dei conta de que eu e outros milhões de pessoas fizemos algo bem injusto. Despejamos anos de frustação nos ombros de um homem que, sozinho, não pode fazer nada. Assim, baixei a bola e continuei a acompanhar Obama de longe. A crise mundial ajudou nesse processo, dado que o governo americano teve que se dedicar mais ao próprio umbigo, but hoje, aquela emoção de alguns meses atrás, veio a tona. Hoje eu consegui ler na íntegra um discurso memorável que Obama fez no dia 04 de junho no Cairo. Um discurso como não via há muuuuuiiiittoo tempo, dedicado a todos, mas especialmente à comunidade mulçumana, intitulado
“Um novo começo”.
Pela primeira vez, com a humildade que lhe é peculiar, um presidente reconhece erros históricos que os EUA cometeu ao longo de décadas. Enfatiza que as relações não devem ser pautadas nas diferenças e sim nos princípios comuns de justiça, progresso, tolerância e dignidade. Com um conhecimento notório, faz questão de demonstrar o valor e importância que o Islã tem para o mundo e como ele foi mal interpretado, vítima de preconceitos nos últimos anos e, assim, pede um voto de confiança para que seja possível restabelecer o diálogo. Mas ele não é ingênuo. Sabe que palavras não são suficientes e que as necessidades dos povos apenas serão atingidas através da ação conjunta, implicando na superação de desafios. Sabe também que se esses desafios não forem superados, os fracassos serão de todos nós.
Simplesmente me apaixonei. Ressuscitou meu lado utópico, que a credita no softpower, no diálogo que promove o desenvolvimento e a paz. E quando penso que o ponto alto do discurso chegou, surpreendo-me. Lembram da minha crônica
“Folha em Branco” e “Salve-se quem puder?”. Nelas eu falo sobre a supervalorização que a tem-se dado à expansão da democracia para o mundo como a única alternativa viável de promoção da paz. Obama fala justamente sobre isso. Permitam-se utilizar as suas palavras: “Sei que houve controvérsia sobre a promoção da democracia nos últimos anos, e que grande parte dessa controvérsia está relacionada com a guerra no Iraque. Quero ser claro: nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto a uma nação por nenhuma outra”. Como diz uma amiga, “queridos”, eu simplesmente fui ao delírio!!!! Tudo que eu sempre esperei de um líder mundial: o respeito às diferenças. E olha que Obama não se restringe à democracia. Fala também dos direitos das mulheres e da liberdade religiosa. Temas extremamente sensíveis em uma região como o Oriente Médio.
É claro que ele não agradou a todos. Muitos no Oriente Médio ainda não acreditam nas boas intenções. Outros tantos nos EUA, acham que ele está abrindo mão do tão custoso poder americano, acumulado às duras penas, e se rebaixando perante desiguais. Mas Obama tem a seu favor o fato de demonstrar que os EUA nem sempre foi assim. O Islã, por exemplo, é uma parte importante do país. Por isso ele pretende lutar contra os estereótipos e pede que os mulçumanos reflitam sobre os juízos de valor que têm com relação aos americanos.
Com relação aos seus conterrâneos que acham que ele reduziu o país ao admitir erros históricos, ele relembrou a sábia frase de Thomas Jefferson:
“Espero que nossa sabedoria cresça com nosso poder e nos ensine que quanto menos o usarmos tanto maior ele será”. Sim, é hora de regredir. É hora de retomar o diálogo e a boa política internacional.

Nota: Agora a Casa Branca traduz os discursos para diversos idiomas, inclusive português. Mais do que nunca, a política mundial está ficando cada vez mais acessível. Para ler o discurso feito por Obama no Cairo, clique aqui.

1 thought on “A volta da boa política internacional”

  1. Olá Palomita!!!
    Vc está coberta de razão em tudo que escreveu!!! Tinha e tenho a mesma impressão que vc tem com relação a Bush e Obama!!! E com toda siceridade torço p/ que Obama mostre o porque está na presidência, afinal ele é negro(mestiço) igual a nós!!!
    Bjs
    Bel

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